Sentimentos de mim mesma

Você tem 24 anos e você tá pensando em ir embora porque todo mundo fala como se essa fosse a única solução. Você sabe que se é difícil ter um emprego maneiro na sua área aqui, lá fora isso seria quase impossível. Mas você tá pensando em ir embora pra trabalhar recolhendo bandeja, ou pra exercer qualquer atividade digna que te permita pagar as contas e não viver com a sensação de golpe.

Não é isso que você quer. Você não tem nenhuma vontade de ir embora. Você no máximo toparia morar em São Paulo, no Rio…você moraria em Recife, mas não moraria em Salvador. Mas do Brasil você não quer ir embora. Você é fraca mas você  tem orgulho da força de quem nasceu aqui, igual a você. É nessa força que você sente algum fio de força. Sangue, suor e América do Sul. Você tem um orgulho do caralho desse país, mas você pensa em ir embora porque você sabe que é fraca e pra lutar em pleno golpe, tem que ser forte.

Você surta, você se exaure, você se perde. Você entrega. Você se entrega em troca de um monte de promessas que fizeram por você e você é incapaz de cumprir.

Um dia você vai ver que não foi embora, não lutou e não fez nada.

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Você

Eu te levei em casa. Não era a primeira vez. Você me convidou para entrar – isso era a primeira vez. Você me convidou para entrar imediatamente e não daquele jeito capixaba socialmente regrado que diz “qualquer dia a gente marca um café” – e simplesmente nunca marca.

Você notou o meu primeiro impulso de fugir para as colinas, no ímpeto do nervosismo e com a simultânea certeza de que eu não daria um milímetro de passo que me afastasse de você. Você me convidou para entrar, então é óbvio que eu entraria. Eu nunca te disse não – só quando você me pediu para ler a minha dissertação – mas eu prefiro pensar que isso é coisa de Lattes e não coisa da vida. E eu tô pouco me fodendo pra coisa de Lattes.

Você sorria com leveza ao colocar a chave na porta, me olhando com ternura por cima do ombro e fazendo algum grau de força para me transmitir qualquer fio de tranquilidade. Você estava de blusa preta – arrisco dizer que 80% das suas blusas são pretas – e o decote era nas costas, como você prefere. Com o cabelo que você só deixa secar no vento, sequer passa a mão, a não ser para fazer uma trança quando está concentrada.

Você não me ofereceu nada para beber. Caminhou reto pelo corredor e eu te segui com tanta certeza e totalmente preenchida por dúvidas. Eu me senti sortuda e maluca. Absolutamente maluca.

Eu te beijei. Fui eu, porque mesmo depois do quadro completo, eu duvidava que você quisesse. Eu ainda duvido. Eu só tenho certeza da minha sorte grande, eu sou 100% incapaz de realize porque você me deu uma chance.

Você se deitou devagar e me chamou com os olhos. O seu cabelo lindo, se espalhando displiscente no seu rosto lindo. O seu jeito de dizer “ok” com a segurança de um diplomata que negocia o cessar-fogo da terceira guerra. O seu jeito de espremer os olhos mesmo com os óculos ali do seu lado.

Eu pulei. Você foi paraquedas, pouso, terra fofa, mar tranquilo. Não havia a menor chance de que eu não pulasse.

Todos os dias eu te escrevo uma mensagem de garrafa. Todo dia eu caminho até a beira do mar, enrolo um papel dizendo que estou pronta para você, coloco esse papel na garrafa e atiro o mais longe possível.

Eu estou sempre pronta pra você. Eu nunca estou pronta pra nada. Você vive dizendo que não está pronta pra nada. Te beijo pronta pra tudo.

24 metas

Eu queria abrir um negócio para não precisar me preocupar com dinheiro, mas dizem que quem mais se preocupa com dinheiro é quem abriu um negócio. Se preocupam tanto, que abrem negócios e querem que os outros abram mão dos programas sociais. É, não quero mais abrir um negócio.

Eu queria não me preocupar, mas no dia-a-dia isso me remoi tanto que talvez, se eu simplesmente não me preocupasse ao invés de fazer um esforço hercúleo para não me preocupar, o saldo final de preocupações seria menor. Mais ou menos como acontece com meus erros, por exemplo.

Eu poderia usar menos “sabe?” ao final das frases, puramente por função fática, mas eu acho lindo terminar a frase com “sabe?”. E não gosto de começar as frases com “aí”, mas tenho essa mania também.

Eu tô com o objetivo de gastar menos com roupa, mas a Farm lançou uma coleção incrível com estampas de banana e resistir a estampas incríveis de banana é um puta desafio classe média.

Tanto quanto não faltar o Pilates em dia de chuva, fazendo força pra lembrar da voz do psiquiatra dizendo “levanta, o corpo em movimento faz o cérebro distribuir sua energia melhor, quanto menos você levantar mais difícil vai ser pra você levantar, levanta!”. E aí levanta.

Eu adoraria não me preocupar. Mas eu me preocupo. Então eu escrevo.

 

Baía da Esperança

Na ponta do deck, eu observei as sombras volumosas se mexendo sob a água. O modo como deslizavam, fazendo esguichos fortes dançarem até à superfície, seguidas por um arco que finalmente as exibia: baleias. Ponto final. Nada pode explicar melhor a ideia de baleia do que simplesmente esta palavra: baleia.

O maior mamífero do mundo parece confirmar a semiótica. É o encontro perfeito da ideia com o som e com a imagem. O acordo com as complexidades, com tudo. E se gostam de dizer que a vida imita a arte, as baleias até mesmo produzem canções – com funções diversas e uma lista de outras possíveis especulações.

Mas não era nada disso que passava pela minha cabeça enquanto, sob um sol outonal, eu observava as baleias. Eu sentia na pele o jogo das luzes, da dança, da música. Eu lembrava das coisas grandiosas que significam muito e são completamente alheias ao nosso esforço: algo do tipo “o universo não conspira contra nem a favor, o universo é indiferente”.

Os cantos, as luzes, as formas, a beleza inapreensível. O que a gente torce para que aconteça e é isso mesmo o máximo que poderíamos: torcer. E ainda que isso emita alguma vibração, altere alguma frequência…olha o tamanho da baleia!

É a força das coisas que precisam ser. Que não sei para onde vão. É o timão de uma embarcação contra a imponência e liberdade de uma baleia. Remoto controle.

 

Diga, cigana

Aos 24 anos, 1 mês e 6 dias de idade, fui pela primeira vez a uma consulta de tarot. As indicações eram ótimas e a recepção não poderia ter sido mais à altura das expectativas.

Logo na abertura das cartas, minha vida gabaritada: check na vida profissional; check nos traumas de infância; check na minha relação com corpo/saúde e check nos relacionamentos. Tudo certo, como num passe de mágica, sem eu precisar abrir a boca. Fui lida nas cartas e a leitura não ficou devendo nada.

Ainda assim, passei o dia inteirinho ruminando o que ouvi lá. Cada porrada, cada onda de energia, cada medo e surpresa que se insurgiu. Em certa altura, com a minha mania de racionalizar tudo – o que também apareceu no tarot, inclusive – constatei que hoje travei mais uma batalha contra o célebre e implacável Mal Estar da Civilização.

Buscar respostas. Buscar sentido. Olhar o caos e querer a ordem. Propósito. É isso que guia a humanidade através de suas mais diversas invenções, produções e batalhas. Religião, Ciência e Esoterismo: jeitos diferentes de contar a mesma história. Jeitos diferentes de explicar o começo e tentar justificar o fim. É como usar ingredientes absolutamente diferentes, de acordo com cada região do país, para reunir pessoas queridas em torno da mesa num almoço de Páscoa, por exemplo: aqui é Torta Capixaba e na Bahia é Caruru, mas não é mais ou menos Páscoa em nenhum dos lugares.

Não tem jeito. Ou todo jeito é jeito. É isso que eu aprendi depois de já ter buscado respostas na Religião, na Medicina, na Psicologia e hoje na Astrologia. Vivos, nos resta viver com a profundidade desse buraco existencial. Por fim, o que mantém a roda girando é qualquer combustível que mantenha a roda girando.

Desce o sol

É como o pôr do sol de domingo, quando as ruas são mais silenciosas e eu vejo o último risco alaranjado descer, logo atrás daquelas montanhas que eu não sei muito bem onde ficam, apesar de estarem ao alcance dos olhos em minha varanda.

O céu inteiro muda de cor, a brisa fica mais gelado de um instante para o outro e só sabemos que a noite vem. Não há como trazer o sol de volta antes da hora dele voltar, isso me desperta uma sucessão de pensamentos férteis. A noite e o dia têm uma força inexorável, incomparável. É diferente de um amor que vai embora, quando você ainda pode tentar ligar 550 vezes para o celular dele, deixar um pacote na porta de casa ou buscar contato com amigos. É diferente até mesmo da morte: nunca ouvi um relato em que Chico Xavier tenha trazido o sol de volta – antes da hora que o cabia.

Com as tecnologias de hoje, sabemos de antemão a hora que ele chega amanhã. Só nos resta esperar. A previsão do tempo no iPhone me avisa que amanhã ele estará de volta às 05:26. Quando muita gente queria que o escuro perdurasse, a brisa fosse mais fria e os pássaros continuassem em silêncio.

Tudo isso corre à revelia da nossa vontade. Tem a ver com passar o tempo, é claro que tem. Os segundos e minutos que só andam para frente, até que de repente aquela criança já está mais para adolescente e os nossos avós de vez em quando deixam escapar um suspiro cansado de quem já viu o sol se por muitas vezes.

Ainda assim, é mais que isso. O sol não é um relógio, a noite não é uma ampulheta. A natureza parece muito mais poderosa, a certeza do caminho sem volta, uma estrada em que a placa escrito “retorno” não aparece nunca e a única alternativa é seguir em frente, rezando para que alguma curva nos dê a chance da chegada mais parecida com o destino sonhado.

Mas nem sempre.