Desce o sol

É como o pôr do sol de domingo, quando as ruas são mais silenciosas e eu vejo o último risco alaranjado descer, logo atrás daquelas montanhas que eu não sei muito bem onde ficam, apesar de estarem ao alcance dos olhos em minha varanda.

O céu inteiro muda de cor, a brisa fica mais gelado de um instante para o outro e só sabemos que a noite vem. Não há como trazer o sol de volta antes da hora dele voltar, isso me desperta uma sucessão de pensamentos férteis. A noite e o dia têm uma força inexorável, incomparável. É diferente de um amor que vai embora, quando você ainda pode tentar ligar 550 vezes para o celular dele, deixar um pacote na porta de casa ou buscar contato com amigos. É diferente até mesmo da morte: nunca ouvi um relato em que Chico Xavier tenha trazido o sol de volta – antes da hora que o cabia.

Com as tecnologias de hoje, sabemos de antemão a hora que ele chega amanhã. Só nos resta esperar. A previsão do tempo no iPhone me avisa que amanhã ele estará de volta às 05:26. Quando muita gente queria que o escuro perdurasse, a brisa fosse mais fria e os pássaros continuassem em silêncio.

Tudo isso corre à revelia da nossa vontade. Tem a ver com passar o tempo, é claro que tem. Os segundos e minutos que só andam para frente, até que de repente aquela criança já está mais para adolescente e os nossos avós de vez em quando deixam escapar um suspiro cansado de quem já viu o sol se por muitas vezes.

Ainda assim, é mais que isso. O sol não é um relógio, a noite não é uma ampulheta. A natureza parece muito mais poderosa, a certeza do caminho sem volta, uma estrada em que a placa escrito “retorno” não aparece nunca e a única alternativa é seguir em frente, rezando para que alguma curva nos dê a chance da chegada mais parecida com o destino sonhado.

Mas nem sempre.

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Nosso tempo não muda

Para nós não há futuro,

Temo o amanhã, sem você.

As portas fechadas,

pesadas demais para os meus braços fracos.

Você ri. Mas ri acreditando em mim.

Em mim você não vê fraqueza,

é capaz de dizer que eu sou capaz de tudo.

Tudo que você sabe bem que eu não preciso.

 

Quando penso em seguir, seguro o passo.

Retrocedo não por fé, mas por alguma fraqueza.

Retrocedo pelo amor fácil que somos,

ainda que pareça tão difícil.

 

Retrocedo porque a você não preciso explicar nada,

abre os braços e me aninha em seu colo,

uma mão sobre a testa, a outra em volta das costas.

Repouso e sossego.

Retrocedo.

De nós, esperam o cuidado

Ao longo dessa semana, venho pensando especialmente sobre a ética do cuidado. Sobre a obrigatoriedade feminina com a ternura, com a prestação de colo e conforto num mundo em que tudo parece desordenado e caótico, mas cujo esperam que nosso lugar permaneça exatamente o mesmo. Naturalizar a delicadeza feminina é historicamente cômodo, citar o tempo das cavernas em que os homens saíam para caçar e as mulheres cuidavam das plantações e das crianças parece muito mais simples que admitir: fatores biológicos não justificam. Se justificassem, a gente estaria até hoje vivendo no mato e esfregando graveto.

Uma autora central na minha dissertação de mestrado, a Susan Browmiller, defende a tese de que o estupro é um crime sempre tratado como uma violação à propriedade; nunca diretamente à mulher. Em qualquer conversa de senso comum sobre o tema, não demora mais de dez minutos até alguém dizer “eu tenho esposa, eu tenho filha, eu tenho irmã, eu não admitiria uma coisa dessa”. A Susan chega a argumentar, numa proposta bastante ousada, que o casamento monogâmico surgiu como uma forma de zelar pela integridade física das mulheres, que deixavam de ser alvo das pilhagens à medida que passavam a viver integralmente na companhia de um homem, tuteladas por ele.

Por que eu coloquei o tema “estupro” em um texto sobre ética do cuidado? Simples: homens cuidam deles mesmos. Da mesma forma que homens direcionam sua confiança profissional a outros homens e reservam seus momentos de lazer aos pares, como se não fôssemos capazes de compreender jogos ultra-complexos como o futebol, eles enxergam no respeito a OUTRO HOMEM um limite para, via reflexa, nos respeitarem, via noção de propriedade.

É basicamente o seguinte: ao não furtar um carro muito maneiro que você encontra na rua, você não respeita o carro, certo? Respeita um conjunto de normas, éticas e morais, que conduzem a vida em sociedade no que diz respeito ao zelo PELA PROPRIEDADE DE CADA CIDADÃO. Desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, lá nos idos da Revolução Francesa, o direito à propriedade é inviolável. Não é à toa que até 2002 o termo “mulher direita” aparecia nas legislações brasileiras em relação ao Direito de Família. O nosso direito individual nunca foi inviolável. A Declaração é pros direitos do HOMEM, mesmo. Ainda bem que não escreveram “ser humano” ali, porque seria mentira. Os nossos direitos dependem de como a gente se comporta, no contexto de tutela.

Tudo isso poderia ser resumido em uma única frase, que vem rondando a minha cabeça ao longo de toda a semana em que refleti sobre isso: de nós, esperam o cuidado. De nós, nunca cuidaram.

 

 

 

Rolam os dados

Alguns dias são pesados demais; alguns sabores são tão amargos e algumas sensações são tão ásperas.

Os sentimentos ruins ganham um impulso universal assustador. As ondas de ódio e lama se erguem em tamanhos assustadores. Eu me sinto pequena, você se sente pequeno. O Chester se sentiu pequeno. Para mim e para você, é difícil acreditar que o Chester possa se sentir pequeno. Geralmente, eu tenho medo de passar pelo mundo sem conseguir pagar minhas próprias contas ou sem fazer qualquer coisa notável.

Ora, esse definitivamente não era o caso dele. Não era o caso de tantos dos nossos ídolos que morreram porque cansaram de carregar o peso do sufocamento nos ombros. Eu já tentei me matar, duas vezes. No momento em que você lembra dessa opção, um buraco negro e negativo pulsa dentro de você. É difícil respirar, as costas ficam geladas e os olhos ficam turvos. No entanto, você sente isso tudo de um jeito raso. A ponto de se mutilar e não sentir dor: só alívio. É um simulacro de você, no entanto parece tão você! É você adoecido, longe de qualquer luminosidade das poeiras de estrelas que te formam. Que nos formam.

A gente é feito de poeira de estrela. O nosso organismo é inteligentíssimo e busca a homeostase. O corpo tem defesas. As coisas foram feitas para funcionar para a vida, por um período determinado de atividades vitais naturais. Há uma luz que nunca se apaga, dentro de todos nós há essa luz. Mas as doenças mentais conseguem ofuscá-la de modo assustador.

Segue o jogo. Lágrimas, traumas, sangue, suor e frustrações. Segue o jogo enquanto essa luz estiver acesa, segue o jogo enquanto algum amigo, familiar ou profissional nos oferecer uma faísca que mantenha acesa essa luz. Eu queria ser capaz de manter acesa a luz do mundo inteiro.

É uma pena que você não tenha mais conseguido ver a sua própria luz, Chester. Porque eu juro, ela existe! Mais que isso: ela manteve e ainda mantém acesa a luz de muitos de nós. Você se foi, mas você não acabou.

Eu vou estar aqui quando você acordar 

Tem dia que eu olho pra você e desejo que tudo fosse diferente. Alguns segundos depois eu rio de mim mesma e até me auto censuro: não há possibilidade de eu me sentir mais feliz e completa afetivamente que nessa noite de domingo, vestindo seu pijama, depois de transar por horas. Não tem o que mudar, a minha felicidade ta aqui. Enroscada nesse espaço entre a curva do seu pescoço e o final do seu ombro, que eu carinhosamente apelidei de “meu pedacinho”. 

Você me dá medo de fechar os olhos pra dormir, por aquela famosa sensação de correr o risco de estar sonhando. Hoje você me prometeu que eu posso fechar os olhos e mergulhar no sono tranquilamente, porque você não vai sair do meu lado em instante algum. Quando eu abrir os olhos, eu vou ver você.

“Sossego”, como você diz. É o que trouxemos um pro outro, nos mais variados sentidos. As horas nunca passaram tão depressa, os banhos nunca foram tão movimentados, as brincadeiras de cócegas nunca foram tão intensas e a saudade nunca foi tão avassaladora. Nunca coube um desassossego tão gostoso dentro do sossego. 

Você diz que nosso amor vem de outras vidas. Eu, como boa agnóstica, não duvido e nem acredito – muito pelo contrário. Assim como eu também não duvidaria se me dissessem que ele veio de uma explosão estrelar, de um cosmo em constante expansão onde tudo surpreende o tempo todo. 

E eu sigo sem cansar. 

Ana Vilela que me desculpe: a vida não é trem-bala

A música da vez é bonita, sim. Faz muito sentido, sim. Mas eu sinto, pensei e tive vontade de dizer: a vida do ansioso crônico é tão diferente.

Dizem que o bom da vida é que os dias passem depressa e os anos devagar, de modo que a gente consiga valorizar mais as datas marcantes, comemorativas e ter menos tempo para sofrer as picuinhas, o trânsito e os excessos do trabalho.

Pro ansioso isso é impossível. A sensação de ter ansiedade é viver sempre um domingo. Você tem o hoje, sim, mas o amanhã não te deixa quieto, não te permite ser pleno hoje. No domingo não pra virar a noite na farra e beber despreocupado. Tem alguma coisa que sussurra.

Eu penso em obrigações o tempo todo. No dia que vou arrumar um emprego melhor. No dia que vou acabar de escrever minha dissertação e ler algo satisfatório ali. No dia que terei menos dúvidas sobre relacionamentos amorosos. “Dia que, dia que”.

Nada disso é hoje. Mas eu penso tudo isso hoje. A cabeça voa, o fluxo de pensamentos é realmente um trem-bala. Mas o dia se arrasta, como a bola de angústia que eu sinto subir pela minha garganta. Hoje eu não tenho obrigações. Hoje eu posso cuidar de mim.

Mas meu coração é domingo. Um domingo teimoso, de tempo esquisito, em que todos os livros parecem desinteressantes e a diversão parece inacessível. Passa, eu sei que passa. Porém não sem cicatrizes.

A ansiedade tortura. Todo dia um pouco. Um pouco de domingo em toda sexta. 

Desliguem os aparelhos

Hoje, opto por sufocar um amor. Retirar o tubo de oxigênio e deixá-lo respirar às arfadas, pouco a pouco. Com os olhos inebriados, como naquela cena clímax do filme “Amor”, em que os olhos por trás do travesseiro gritam: eu não acredito que você quer me matar. 

Se uma decisão radical exige coragem, sufocar o amor é uma escolha mergulhada e besuntada em covardia. Em um belo dia de terapia, decidi enxergar o óbvio. Decidir encarar de frente que não dá mais – mas ainda assim, não tenho força pro ponto final. Então, sufoco.

Matar um amor por asfixia assume algumas prerrogativas que devem ser cumpridas. É necessário examinar a fundo a situação e ter certeza: não há loucura que ele possa fazer. Ele não pode gritar. Não haverá escolha. 

É morrer calado.